Costumo dizer que fui adolescente na melhor época musical do Brasil! Uma era onde Brasília produzia não só vergonha e corrupção, mas também, bandas incríveis como a Legião Urbana, a Capital Inicial e a Plebe Rude, que se somavam a outras bandas que surgiram no cenário musical brasileiro: Barão Vermelho, Titãs, Ira, Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Hawai, etc.
De todas elas a Legião Urbana era a melhor tradutora de sentimentos desta então adolescente, que estudava para o vestibular, estava feliz da vida por votar pela 1º vez e achava que estava apaixonada. Eu acreditava que o país era um lugar podre, mas que tinha jeito e que os únicos que conseguiriam mudar tudo eram os jovens.
A Legião era uma banda com músicas intensas e um vocalista tenso! Renato Russo era a alma da Legião. As letras das músicas eram inteligentes, cada metáfora pensada e colocada no lugar certo. Eu que não entendia nada de música, amava o som da bateria do Bonfá e da guitarra e violão do Dado.
Nos anos 90 eu era uma jovem estudante de Psicologia na UNESP em Assis/SP, a mente recém tocada pela Psicanálise me fazia viajar nas letras e duplos sentidos da Legião. Em 1996, Renato faleceu e a minha dor foi real... E eu pensava com tristeza que nunca mais seria surpreendida por uma letra e por uma musica que dissesse exatamente o que eu sentia.
Mais tarde, adulta continuei a amar as músicas, a entender novos significados escondidos nas estrofes das músicas da Legião. E a maturidade me fez entender que eu amava o Renato e sentia uma grande saudade dele, das suas opiniões controversas, cultas, revolucionárias, poéticas e revoltadas.
E como minha vida adulta é construída sobre muuuuuuitas saudades, de uma forma meio esquizofrênica, eu sinto que conhecia e era amiga do Renato e realmente sinto falta dele, como sinto falta dos meus amigos de faculdade e daqueles que amo e que se foram. Também foi na vida adulta que eu conheci o meu grande amor...e que surpresa! Além de ser especial e de ter traços que me atraíam naturalmente, ele também gostava muuuito da Legião Urbana...É claro, que casei com ele!
Não se passa uma semana sem que eu escute Legião Urbana e todas as vezes me reporto ao passado e à década de 1990, aos sentimentos de revolta com o disparate da política brasileira e de esperança de que algo possa revolucionar e mudar.
Eu ainda acredito nisto...só não acredito muito na capacidade crítica dos jovens de hoje... Infelizmente conheço apenas alguns que a tem. Mas, continuo otimista acreditando que talvez eles acordem um dia... Quem sabe se eles deixassem de ouvir exclusivamente sertanejo universitário (?!?) e funk erótico... Eu oro para que Deus proteja esta juventude e para que eles um dia ouçam a Legião Urbana.
"...É a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez, o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe maisTenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.
Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos!
Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão..."
[Metal contra as nuvens - Legião Urbana]