Friday, January 25, 2008

25/01/2008 - Vincos na alma



Às vezes tenho saudades de ser adolescente, falar de idéias e sentimentos sem nexo... E rir com isso. Ser adulta muitas vezes me chateia e vejo a minha volta tantos velhos, pessoas que a despeito da idade (pouca) perderam o viço da vida e têm almas enrugadas. Não são pessoas idosas, são pessoas gastas, surdas, incapazes de ouvir, envelhecidas sem sabedoria. Não aconselham, nem orientam. Julgam e emitem opiniões. Eu observo apenas. Ah, se eu fosse adolescente... Ia me rebelar, falar umas verdades impudicas.
No entanto, ainda que não tenha enrugado a alma, os anos vividos me ensinaram que a gente não muda ninguém, mas tão somente a nós mesmos. Isso eu não sabia na adolescência.
No mundo adulto, muitas pessoas lutam contra as rugas da pele, enquanto a presunção e perda da compaixão e da sutileza vincam a alma tão desairosamente. Quanto a isso, nada podemos fazer...
Então eu observo, mas dispenso os discursos vazios e presunçosos. Quero mais pra minha vida, quero quem acrescente, embeleze, suavize. Cansei de palavras cruas, rudezas travestidas de franquezas, apoios mancos, inócuos. Não desejo falsidades e inverdades, apenas cortesia e sensibilidade... Pelo menos dos amigos.

"A vida está cheia de interferências indébitas, de acasos estúpidos, de personagens errados que travam conosco desencontrados diálogos de surdos, a vida está atravancada de pormenores inúteis..."
Maria Quintana
Foto: http://www.pontosdevista.net

Monday, January 21, 2008

21/01/2008 - Partida em dois tempos


Nesse momento só me resta mesmo escrever. Fiquei muito tempo longe do teclado afetivo, emocional, digitando e produzindo apenas o “científico”. Com o término do trabalho o qual me dediquei por mais de dois anos, ficou um vazio, um oco, que lentamente a vida vai voltando a preencher. A despeito de a vida estar se reestruturando na direção de novos projetos e da retomada de outros que amorosamente já acalentava, antes percebo que no vazio algo se movimenta. São conteúdos que se vão finalizando antes que um ciclo se feche enfim. Talvez todo esse ciclo se resuma a uma determinada cidade que parece ser um lugar fantasmático no livro da minha vida. Uma cidade vivida em dois tempos. Um de preparação, de aprendizado. Outro, dez anos depois, de aprimoramento, de conclusão.
Vivi muito e intensamente ambos os tempos. Fiz amizades sólidas no primeiro tempo e no segundo pude entender que sobreviveram em sentimento e assim permanecerão para além da distância e dos encontros materiais. Construí conhecimentos e pude ampliá-los depois, entendendo que muito há a expandir quando se trata da mente humana e de suas relações como o mundo. Conheci o amor e a paixão, para entender uma década depois, que eram apenas vislumbres da potência do que realmente podem ser em verdade. Ainda que tudo tenha sido vivido intensamente, também sofri com amizades que terminaram, com provas, trabalhos, prazos e críticas, com desejos não correspondidos e desilusões.
Um tempo e outro têm em comum um sentimento de insatisfação com o que não aconteceu. Em meio ao vazio eu me pergunto: o que poderia ter feito e não fiz? O que poderia ter feito melhor? Como seria ter tomado outras decisões, diferentes das que tomei? O que deixei de aprender? Que livros não li? Onde estão guardadas as lembranças do que não chegou a acontecer? Enfim, o que foi feito do que não vivi??? E de repente me vejo perplexa, com saudades do que nem chegou a existir. Talvez paralelo a vida estejam os caminhos nunca percorridos. Estou meio aéria...É como se a memória falhasse e eu estivesse muito cansada depois de um grande esforço tentando lembrar de algo que, na verdade, nunca aconteceu.
E então, nessas coincidências escandalosas da vida, leio uma entrevista, um achado de 1973, onde Clarice (Lispector) me decifra (mais uma vez):


“Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu. Como conseguirei saber do que ao menos sei? Assim: como se me lembrasse. Com um esforço de memória, como se eu nunca tivesse nascido. Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne viva.”
Clarice Lispector

E foi assim mesmo que deixei a cidade, em carne viva. Agradecida e perplexa com tudo que vivi e com o que por tantos e por nenhum motivo, simplesmente não vivi. Uma única e endereçada lágrima fecha o ciclo, dois tempos sem prorrogação. E eu sei que não me sentirei oca por muito tempo. A efervescência maravilhosa da vida se encarregará de preencher com a realidade o vazio do que poderia ter sido, mas nunca existiu...